O meu coração parou um segundo, soltou-se um rio de gelo nas entranhas, mas logo depois tu lançaste-me o fogo, e deixaste-me a pele a formigar.
Enterrava-te os dedos no corpo e transmitias-me arrepios de volúpia.
Eram histórias e risos, e cigarros que já não fumo, com chamas azuis de fumo no olhar, o ar cheio de uma crepitação interior. Segredos ocultos entre paredes e escadas de madeira que subíamos entre degraus de riso escancarado e elevadores de portas metalicamente silenciosas. Carros elegantemente dispostos em parques de

 

caravanas abandonadas.

ima02
Tínhamos uma fina camada de névoa a pairar na madrugada, e logo depois o sol a brilhar ao longe no rio.
Desencontros.
Tomavamo-nos um ao outro ao pequeno almoço.

 

O dedo no planisfério

Por breves momentos, senti a cabeca às voltas. Ali, no meio do escuro, o tempo regrediu. Uma quantidade de episódios, distantes no tempo e no espaco, sobrepuseram-se uns aos outros. As recordacões desmoronaram-se como castelos de cartas. Depois, numa questão de segundos, acabou tudo. Quando voltei a abrir os olhos, as coisas tinham voltado ao normal. Diante de mim havia apenas um espaço grande e vazio, estranho de tão anódino, mais nada.

Nat King Cole cantava “South of The Border”.

Acordei no sofá. A luz estava apagada e o quarto estava mergulhado nas profundas trevas que são prenúncios de morte. Sentia o corpo dormente, desde a ponta dos dedos até à medula dos ossos. A escuridão era como tinta infiltrada por todos os poros do meu corpo.
Levantei-me do sofá, acendi o candeeiro de pé, fui até à cozinha e bebi dois copos de àgua fresca. Sobre o fogão, o resto do guisado ainda se conservava quente. As beatas de dois cigarros estavam esmagadas no cinzeiro.
Instintivamente, soube que ele se tinha ido embora. “Ele já não está aqui comigo”, dizia o meu cérebro.
Ele já não estava ali, era uma certeza e não uma mera teoria.
De novo o mesmo doloroso vazio.
Ele foi-se embora sem sombra de dúvida. Tinha acabado de acordar, é certo, e o raciocínio estava lento, mas mesmo que a cabeç34_thumb[2]a estivesse a funcionar como deve ser, aquilo escapava por completo à minha capacidade de compreensão.

Posto de outro modo: Só me resta deixar que as coisas sigam o seu curso.

Pay Back Time

– Estou?
– Estou…
– Boa tarde.10888768_884911978196686_6024949655649503387_n
– Será uma boa tarde?
– Quem fala?
– A quem quer perguntar quem fala?
– Como?
– Sim?
– Estou?
– Diga.
– Sim… Somos do Banco Único A e gostaríamos de saber se…
– Quem fala?
– Somos do Banco Único A e…
– Desculpe, tem dupla personalidade?
– Como?
– Disse somos…
– Não entendo.
– Quem não entende sou eu. Porque disse somos? Você tem dupla personalidade? Você é quantas pessoas?
– Sou… Por favor, senhora, estou só a trabalhar, estou a tentar…
– Vender-me alguma coisa?
– Exactamente.
– E ligou para minha casa, a esta hora…
– Desculpe, mas pensamos que…
– Trabalha numa empresa de tele marketing e sofre de esquizofrenia… Coitado…Ou não! Será que o senhor, aliás, vocês, são irmãos siameses?
– Como?
– Se estou a falar só com uma pessoa, porque usa o plural?
– Plural?
– Como é que estão ligados? Pelo abdómen? Pobrezinhos. Tem duas cabeças, é isso? Algumas pessoas viram a cara, nem olham. Eu não tenho preconceitos. Então, uma pergunta: quando um quer ir ao teatro e outro ao cinema, como fazem? ( silêncio)
Ele está aí? Claro, que pergunta… Sempre tive curiosidade: e para dormir? Podem operar ou vocês não se querem separar? Posso ouvir a voz dele? Ai que parvoíce…. Ele deve ter outra chamada. Claro que vocês não se querem separar. Ganham o dobro?
Estou? Estou? Está lá? Desligou?

Gargalhadas a iluminar os rostos incrédulos depois de eu desligar o telefone.
De volta á minha sala metade laranja. It’s pay back time!

Agenda

66-PT-Swing-Studio-1024x1024

– Da parte da tarde, se possível, puxar o interruptor do sol e esperar que a luz venha cair de chofre sobre as palavras e incendiá-las das clareiras interiores por onde o coração (meu pequeno e tonto coração!) ainda se ousa. E, se puder ser, encharcar os olhos de euforia e deixar que os pássaros da saudade se atrevam às lonjuras que as ausências lhes requerem.

– Ficar de pé na terra e tentar tocar as estrelas com as pontas dos dedos.

– Pegar cuidadosamente numa peneira de astros ou numa rede transparente feita dos primeiros fios do entardecer, inventar uma paisagem à medida da comoção que nos traz e, desapercebida e quase clandestinamente, penetrar na floresta virgem das emoções que busco.

-Suspender o coração e reaprender o alfabeto-morse das misteriosas viagens ao país dos pirilampos lunares. Com as mãos indecisas decorar ma vez mais a lenta respiração dos nenúfares.

– Recordar como é frágil a filigrana dos silêncios.